Contribuições para o debate econômico no estado do Rio de Janeiro

As discussões sobre a economia do Rio de Janeiro precisam considerar, adicionalmente, o problema dos desajustes orçamentários (injustiça na composição da receita, gestão ineficiente, corrupção, etc.), a importância do setor agropecuário e a natureza de sua estrutura produtiva. Essa mudança de visão traz o interior para o contexto de uma discussão, hoje muito concentrada na região metropolitana e na capital.

Uma outra questão importante é considerar a dificuldade que os grandes projetos exógenos têm de fixar riqueza em seus espaços de localização e entorno. A Bacia Petrolífera de Campos em operação a mais de quatro décadas, apesar do substancial riqueza gerada, não foi capaz de eliminar os graves problemas socioeconômicos da região e do estado. O mesmo pode-se dizer em relação outros projetos como: Comperj, Complexo Farol- Barra do Furado, Porto do Açu e Porto de Itaguaí.

Esses projetos são importantes, mas não devem inibir iniciativas que estão sob o nosso controle, como as relacionadas ao planejamento endógeno. É urgente o esforço da reestruturação produtiva dos sistemas tradicionais que sofrem de problemas de baixa competitividade, em função da carência de crédito, gestão, informação, tecnologia, logística e escala. O combate a esses gargalos exige estratégias inovativas e integração equilibrada dos principais atores e agentes no contexto territorial. O método do tríplice hélice de integração entre governo – indústria – universidade, representa um potencial instrumento de planejamento, porém, ainda é preciso considerar o baixo padrão de capital social no estado, o qual deveria ser, primariamente, tratado a partir de uma estrutura de governança para girar as três hélices (governo, indústria e universidade).

Acredito que o esforço de pensar a reestruturação produtiva territorial doméstica em um contexto de cadeias, contribui, sobremaneira, para aperfeiçoar todo o sistema econômico na absorção das externalidades positivas dos grandes projetos exógenos. O aprendizado pode potencializar o crescimento econômico sem exclusão, já que as ocupações potencializadas estariam mais próximas das habilidades locais / territoriais.

A acomodação do estado do Rio de Janeiro em relação às rendas de petróleo permitiram um certo abandono da atividade agrícola, fundamentalmente. A área colhida em 1980, segundo o IBGE, atingiu 399.634 hectares, caindo para 110.892 hectares colhidos em 2018, ou seja, uma retração de 72,25% no período.

Na produção leiteira foi verificado um avanço. Em 1980, segundo o IBGE, a produção de leite atingiu 360.084 mil litros no estado. Em 2018 a produção cresceu para 468.988 mil litros, gerando uma adição de 30,24% no período. O mesmo ocorreu com o efetivo de rebanho bovino. Em 1980 foi contabilizada a existência de 1.773.665 cabeças, em 2018 houve uma evolução para 2.552.587 cabeças, ou um incremento de 43,92% no período. Há de se considerar que a presente evolução não foi provocada por nenhuma politica púbica e sim pelo esforço empreendedor de cada produtor. Apesar do crescimento em volume, a produtividade média da atividade ainda é muito baixa.

A distribuição desse potencial de riqueza entre as mesorregiões, mostra uma grande proporção fora da região metropolitana, daí a crítica em relação a prática corrente da discussão econômica concentrada na capital ou na região metropolitana.  

A figura a seguir apresenta a distribuição da área colhida em hectare no estado em 2018. Dos 110.892 hectares colhidos no ano, somente 16,94% ocorrem na região metropolitana. Mais da metade ou 51,4% ficaram concentrados na região Norte Fluminense. A região Noroeste Fluminense foi responsável por 13,30%, a região de Baixadas foi responsável por 11,03%, a Centro Fluminense por 5,14% e a Sul Fluminense por 2,16% da área colhida total.

Figura 1: Distribuição da área colhida no Rio de Janeiro em 2018

Fonte: Elaboração própria com base no IBGE.

A produção leiteira de 468.988 mil litros no ano apresentou uma distribuição bem mais descentralizada, onde a menor participação de 7,34% foi da região metropolitana. A região Sul Fluminense teve a maior participação de 31,69% da produção total, seguida pela região Noroeste Fluminense com uma participação de 25,69% e da região Norte Fluminense com 17,69%. A região Centro Fluminense tem uma participação de 15,19% e a região Baixadas teve a menor participação de 2,41% da produção total no ano.

Figura 2: Distribuição da produção leiteira no Rio de Janeiro em 2018

Fonte: Elaboração própria com base no IBGE.

Já o efetivo de rebanho bovino contabilizado 2.552.587 cabeças, apresentou uma distribuição de 28,26% na região Norte Fluminense, 21,94% na região Noroeste Fluminense, 15,48% na região centro Sul Fluminense, 15,11% na região Sul Fluminense, 10,92% na região Metropolitana e 8,29% na região Baixadas.

Figura 3: Distribuição do rebanho bovino no Rio de Janeiro em 2018

Fonte: Elaboração própria com base no IBGE.

Sintetizando a visão central, podemos concluir que como não aproveitamos as externalidades positivas dos grandes projetos de base em recursos naturais e demonstramos fragilidade competitiva nos negócios tradicionais, vejam que o Rio de Janeiro é importador de alimentos e a estratégia de reorganização produtiva nos setores tradicionais é uma saída. Com esse laboratório podemos aprender, para posterior avanço tecnológico, que deve haver a integração governo – indústria – universidade, numa estrutura de governança para fixar elementos de capital social, além do planejamento para suprimir gargalos como escala, gestão, crédito, informação, logística, aumentando o poder competitivo local / territorial.

Alcimar das Chagas Ribeiro
Sobre Alcimar das Chagas Ribeiro 1356 Artigos
Economista, mestrado e doutorado em Engenharia de Produção e Pós-doutorado em Economia. Professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF

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